04/06/2009

PM invade USP para barrar greve de funcionários

Militares permanecem no campus por 13 horas, mas continuidade da paralisação é aprovada por unanimidade; deputado convoca reitora para depor na Assembléia Legislativa



Por Lúcia Rodrigues



Os funcionários da USP, em greve há 28 dias, foram surpreendidos, com a presença de um contingente militar de aproximadamente 200 homens da Força Tática, da Rocam (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas) e do policiamento da área, que invadiram o campus Butantã por volta das 02h30 da madrugada de segunda-feira, 01 de junho.

Os policiais perfilaram-se em frente a 10 acessos de prédios da universidade. O da reitoria foi o que concentrou o maior número de homens. Armados com escudos, escopetas e bombas de efeito moral, os policiais arrancaram, inclusive, faixas do sindicato que convocavam para a assembléia de funcionários que discutiria os rumos do movimento. Várias viaturas da PM circulavam pelo campus. Um caminhão do Corpo de Bombeiros e uma ambulância do resgate também foram desviados para a USP.

Segundo o comandante do 4º Batalhão da PM e responsável pela operação, tenente-coronel Cláudio Miguel Marques Longo, a presença da polícia no campus seria para garantir que não ocorressem danos ao patrimônio. “Havia indícios de que haveria invasão.”

Os funcionários desmentem a versão do militar. “Não havia a menor possibilidade de isso acontecer. Nossa greve tem a adesão de 70% da categoria”, rebate Claudionor Brandão, diretor do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) e membro do comando de greve.


Mentira

Pela manhã, três oficiais de justiça foram ao campus para entregar cópia do mandado expedido pela juíza da 12ª Vara da Fazenda Pública, Maria Fernanda de Toledo Rodovalho, determinando a reintegração de posse e citação. Fato insólito, pois nenhum prédio da universidade estava ocupado.

Na peça apresentada pela USP, solicitando a reintegração de posse com perdas e danos em face do Sintusp e do Diretório Central dos Estudantes, a reitoria alega que “as referidas entidades passaram a insuflar os participantes a invadirem os referidos bens públicos”.

O texto acrescenta ainda, referindo-se ao Sintusp, que “para alcançar o maior número de adeptos, passou a emitir boletins informativos, insuflando a comunidade universitária, com argumentos desprovidos de qualquer veracidade”.

Baseada no pedido de liminar impetrado pela USP, a juíza afirma em seu despacho que “nem mesmo o direito de greve dá aos grevistas o direito de se apossar de prédios públicos”.


Ditadura


O deputado estadual do PSOL Carlos Gianazzi convocou a reitora Suely Vilela a prestar esclarecimentos na Assembléia Legislativa sobre o episódio de hoje. Gianazzi quer saber porque a polícia militar invadiu o campus. “É uma mácula na história da USP. Remonta aos idos do AI-5”, lamenta o deputado.

Para o professor de sociologia Rui Braga, a invasão da Polícia Militar ao campus da USP é inadmissível. “Nem a ditadura militar ousou fazer isso”.

“Esse tipo de invasão é inédito e lamentável”, reforça o presidente da Adusp (Associação dos Docentes da USP), Otaviano Helene.

Os policiais só abandonaram o campus, 13 horas após invasão, depois que professores iniciaram uma aula pública para mais de 800 estudantes, em frente ao prédio da reitoria. Segundo Magno de Carvalho, dirigente do Sintusp, o comandante da operação teria dito ao ir embora: “nós vamos, mas se amanhã tiver piquete voltaremos”.


Greve continua


Os funcionários reunidos em assembléia no início da tarde aprovaram, por unanimidade, a continuidade da greve. Hoje, 02, estudantes e funcionários organizaram ato conjunto em frente à reitoria, para protestar contra a invasão da PM.

A reitora Suely Vilela não quis comentar a invasão militar. A nota distribuída pela assessoria de imprensa da universidade afirma que a reitoria adotou as medidas cabíveis.

As negociações com o Fórum das Seis (que representam os docentes, funcionários e estudantes da USP, Unicamp e Unesp) estão suspensas desde o dia 25 de maio.

Os funcionários reivindicam 16% de reajuste, incorporação de R$ 200 ao salário, a readmissão do diretor do Sintusp, Claudionor Brandão, demitido em função de sua atuação à frente do sindicato e a retirada de processos contra dirigentes sindicais e estudantis.


Os professores da USP também paralisam as atividades hoje. Os docentes realizam assembléia para discutir os encaminhamentos da campanha salarial.


O Fórum das Seis aprovou, uma moção repudiando a invasão da PM e exigindo a reabertura das negociações por parte do Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo).


Fonte: Revista Caros amigos

1 Comente aqui:

Patrícia disse...

Temos o DEVER de defender nossos direitos. Se utilizamos do recurso greve e ocupação é porque todos os outros foram esgotados.
Não somos ouvidos, a repressão esta presente em nosso dia a dia, somos agredidos pelos decretos do governador do Estado de São Paulo ao implantar projetos como a UNIVESP. A população brasileira esta sendo atacada, humilhada e desvalorizada por esses projetos.
Os que deveriam ser nossos representantes, aqueles que demos nosso voto de confiança nos trai. Vivemos em uma Democracia disfarçada, não temos voz. Quando as agressões do governo chegam aonde chegou nos vemos encurralados. Se agimos com violência hoje é porque já havíamos sido muito violentados.

Estudante de Pedagogia da Unesp de Rio Claro. Presente no ato de 09/06/09

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