22/07/2011

"A rebelião das mulheres contra a falsidade da moral sexual é um dos traços mais vivos da nova mulher." Alexandra Kollontai



Por Jéssica Cardoso


Em uma palestra realizada numa universidade de Toronto, no Canadá, um policial falava sobre segurança no campus. Durante sua fala, afirmou que um dos métodos de prevenção ao estupro e/ou assédio sexual é que as estudantes deveriam evitar se vestir como “vagabundas”. A partir disso, mulheres em Toronto se organizaram para marchar contra esse posicionamento opressor, por acreditarem que toda mulher é dona de seu próprio corpo e tem o direito de se vestir como quiser sem estar sujeita a situações de assédio moral, sexual e/ou estupro. Esse movimento se espalhou por todo o mundo, chegando ao Brasil com o nome de “Marcha das vadias”.
No Brasil, os termos “vagabunda” ou “vadia” receberam uma conotação pejorativa, pois são utilizados como uma crítica à liberdade sexual das mulheres. No entanto, é uma crítica que ganhou maiores proporções: toda mulher que se impõe e faz o que quer é tachada de “vagabunda” ou “vadia”.Quantas vezes nós mulheres, namoradas, cidadãs, trabalhadoras, mães, estudantes fomos chamadas de “vagabundas”, seja por desconhecidos, patrões, namorados/maridos, policiais e até mesmo por outras companheiras que reproduzem esse discurso machista? São palavras que marcam a nossa história. Por que a mulher que se veste diferente do padrão instituído pela sociedade é chamada de “vagabunda” e “vagabundo” é o homem que não trabalha? Baseado em que valores esse significado foi aceito pela sociedade e quem os criou?
A questão é como ressignificar esses termos. Há quem diga que isso não é possível pela carga pejorativa que possuem. Porém, acreditamos que a luta cotidiana contra esse tipo de opressão pode, mesmo que a longo prazo, conscientizar a sociedade e ressignificar os termos de modo que estes tenham o mesmo significado, independentemente do gênero.
Não é uma roupa que nos deixa mais ou menos vulneráveis. Outro dia, um humorista famoso publicou algo do tipo que “mulher feia” deveria agradecer por ser estuprada e muitas pessoas acharam isso engraçado e concordaram com essa afirmação. NADA justifica um assédio sexual. Nenhuma mulher é estuprável. É contra isso que devemos lutar! A “Marcha das vadias” foi uma das representações dessa luta cotidiana, com o objetivo de questionar o controle que existe sobre o corpo e a sexualidade da mulher e o fato de que as mulheres são culpadas por serem estupradas. A nossa sociedade tem ensinado “como não ser estuprada”, quando deveria ensinar “não estupre”. O machismo é tão evidente que não se critica um homem por andar sem camisa no meio da rua... eles podem fazer isso sem serem assediados ou tachados de “vagabundos”. Não podemos nos limitar e limitar as nossas mulheres a esses estereótipos. Não podemos aceitar essa opressão sem nos manifestar!
Outra evidência do machismo hoje é que manifestações como essas não são vistas como forma de protesto a esse posicionamento opressor e são duramente criticadas.
E fazemos nossas as palavras das companheiras que marcharam em Brasília:

“No Brasil, marchamos porque cerca de 15 mil mulheres são estupradas por ano, e, mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro. Marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja como se fossemos o próprio objeto de consumo; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo e nos rotulando em “santas” ou “putas”; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas e estupradas pelos senhores são hoje empregadas domésticas e continuam sendo estupradas pelos patrões.

Marchamos porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pelo estupro, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens sem seu consentimento, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente.

Mas podemos.
Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque
transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias diariamente apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir. Se, nanossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somostodas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos.

Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias...TODAS MERECEMOS RESPEITO!”

1 Comente aqui:

Anônimo disse...

As mulheres do mundo todo sempre que tiver uma manifestação a seu favor deveriam comparecer ou divulgar através de redes sociais, para que sempre mais e mais mulheres possoam apoiar. As mulheres tem o direito de se vestir e se comportarem como quiser. Vamos nos unir sempre e lutar contra o machismo. ISSO NÃO É UM MOVIMENTO CONTRA OS HOMENS, MAS SIM CONTRA O MACHISMO.

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