31/07/2011

O CA Caldeirão e a FEMEH

 Quase todos os cursos do Brasil possuem entidades nacionais (executivas/federações), que servem para aprofundar debates específicos (como currículo, regulamentação da profissão, etc) e para se somarem aos diversos movimentos populares pela transformação social.
No caso da História, temos a FEMEH (Federação do Movimento Estudantil de História), que existe de 1987 e que organiza todos os encontros estudantis, seminários de formação política, EIV’s (estágios interdisciplinares de vivência), etc. A FEMEH também serve para que exista um acúmulo de debate no que diz respeito aos currículos de história, à ensino e pesquisa, à regulamentação da profissão; serve também para impulsionar pautas de essência política mais aguçadas, como a campanha permanente pela abertura dos arquivos da ditadura e a punição dos torturadores.
A FEMEH é constituída pelos centros e diretórios acadêmicos de todo o Brasil, fazendo assim com que o Cahis Caldeirão da UECE também seja um membro da entidade. Por isso sempre fizemos o esforço de mandar representantes para as atividades da Federação, pois entendemos que ela é uma importante ferramenta de acúmulo político-acadêmico para os cursos de História do Brasil. Nesse sentido, tivemos várias atividades fora do estado:

  • Nov/2010: Conselho Regional de Entidades de Base (Nordeste) em Alagoas, para discutir a
programação do II Encontro Regional de Estudantes de História - NE;
  • Dez/2010: Seminário Temático de Formação Política Nacional, em Curitiba, que discutiu currículo de História; acompanhado de um Conselho Nacional de Entidades de História em Curitiba, para definição da programação do XXXI ENEH;
  • Mai/2011: Conselho Nacional de Entidades de História, em Aracaju, para discutir questões organizativas da Federação e também o XXXI ENEH que até então seria em Floripa.

Além das atividades acima citadas, comum a todos os CAs e DAs que constroem efetivamente a FEMEH, nós do Caldeirão tivemos um papel maior dentro dela nesse último período. Desde o ENEH realizado em Fortaleza, o Caldeirão está na Coordenação Nacional (CN) da entidade, juntamente com a Universidade Federal do Paraná e Universidade Estadual da Bahia. Por esse motivo, passamos a ter uma maior responsabilidade dentro da FEMEH, bem como uma maior legitimidade a nível nacional. Cumprimos tarefas tais como:

  • Reunião presencial da CN em Curitiba realizada à época do Seminário Temático de Formação Política para tirar o planejamento da nossa gestão;
  • Campanha pela abertura dos arquivos da ditadura que aqui no Ceará culminou com o Jornada “Para não esquecer jamais” realizada em conjunto com a UFC;
  • Acompanhamento de atividades dos cursos de História Norte e Nordeste: I EREH N no Macapá; II EREH NE em Aracaju; Semana de História da UFPI, em Terezina;
  • Segunda reunião presencial da CN realizada no início deste mês em São Paulo e convocada por nós com caráter de urgência, a fim de minimizar os danos causados pelo cancelamento do ENEH de Florianópolis. Foi através desta última reunião conseguimos articular o próximo ENEH que será realizado em São Paulo, em janeiro de 2012;

Podemos ver que tivemos um calendário bastante movimentado com atividades externas, mas sempre trazendo para nossa universidade o retorno das discussões levantadas, a fim de aproximar cada vez mais estudantes da FEMEH. Vemos na unificação dos estudantes de História do país um meio que, ainda que seja difícil, se faz necessário para melhorar a qualidade de nossa formação.

25/07/2011

Do Elogio à Desobediência Civil


Por Isick Kaue

A luta por uma transformação radical da nossa sociedade passa por táticas que se chocam com o ideário da “ética” burguesa. No filme “The Edukators”, por mais romântico que este possa parecer, essa questão é pronunciada pelo personagem “Peter”, quando os outros dois - Jule e Jan – passam a questionar as práticas que estavam adotando para por em xeque o “status quo” e o “poder econômico”, tendo em vista que entravam de forma sorrateira em mansões, mudando a ordem da mobília e deixando mensagens pintadas nos muros internos, como “seus dias de fortuna acabaram”, o que, sob o olhar da referida perspectiva de ética, é deveras condenável, pois ocorrem invasões de propriedades particulares – os templos sagrados do capitalismo. Se quisermos pensar em um exemplo cotidiano do nosso país, podemos visualizar as ocupações de terra feitas pelo MST (Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra). Bem distintas das citadas no exemplo do filme, apesar de também desafiarem os poderes estabelecidos, as ocupações realizadas por este movimento em propriedades privadas visam à desapropriação de latifúndios para fins de reforma agrária, estando esta inexoravelmente atrelada ao sonho da justiça social. Dessa forma, deveríamos pensar que são ilegítimas essas ocupações que o MST realiza e tratá-las, como a Grande Imprensa (Veja, Globo, Folha de São Paulo, e outras cositas más) o faz, enquanto “invasões”, quase remetendo aos bárbaros que tomaram a cidade de Roma no ocaso do Império, que ferem a “ordem” e os “bons costumes”? Para nós da atual gestão do Centro Acadêmico de História CALDEIRÃO tratam-se de ocupações legítimas, carregadas de uma intencionalidade positiva, em que vibram as utopias de um outro mundo possível. Não obstante, os dois exemplos foram acima versados para tecer um elogio à desobediência civil, elogio à postura que questiona e almeja subverter a lógica nefasta da sociedade em que vivemos, utilizando-se, para tanto, dos recursos que se nos apresentam disponíveis para dialogar com o conjunto da sociedade: o MST realiza ocupações de Terra, constrói o seu próprio veículo de comunicação (um jornal), já que a Grande Imprensa tenta vilipendiá-lo, ou ocupa prédios públicos, quando reivindica algo diretamente ao governo; e nós, do movimento estudantil, quais formas possuímos para dialogar com o conjunto dos estudantes, apresentando as problemáticas da universidade, da educação e, de forma mais ampla, do povo brasileiro? No caso do Movimento Estudantil de história da UECE, desenvolvemos um jornal, que é distribuído para os e as estudantes do curso, utilizamos também um blog (http://www.caldeirao.org/); porém, acreditamos que estes dois não dão conta de propagandear nossas bandeiras para todos os e todas as estudantes da UECE, então adotamos também as táticas do Muralismo, aonde várias pessoas em conjunto pintam/grafitam um muro da universidade abordando uma questão relativa à realidade ueceana, e da pintura de faixas e cartazes durante oficinas, sendo esta última mais comum nas vésperas de atos. Vale salientar que, por vezes, mesmo tomando diversos cuidados, sobram alguns vestígios dessas atividades, como um pouco de tinta (spray ou convencional) cair no chão, levando algumas pessoas a entender que se trata de “depredar o patrimônio público”, inclusive considerando o caráter “ilegal” dessas atividades: sobre a questão da legalidade, que, nesse caso, não nos é muito cara, podemos retrucar que ilegal é o governo do estado permitir que as três universidades estaduais (UECE, URCA, UEVA) funcionem com um déficit de mais 600 professores efetivos; quanto à legitimidade, que para nós é o central, por tudo que já foi dito anteriormente, temos convicção de que estamos lutando no lado certo da trincheira.

22/07/2011

"A rebelião das mulheres contra a falsidade da moral sexual é um dos traços mais vivos da nova mulher." Alexandra Kollontai



Por Jéssica Cardoso


Em uma palestra realizada numa universidade de Toronto, no Canadá, um policial falava sobre segurança no campus. Durante sua fala, afirmou que um dos métodos de prevenção ao estupro e/ou assédio sexual é que as estudantes deveriam evitar se vestir como “vagabundas”. A partir disso, mulheres em Toronto se organizaram para marchar contra esse posicionamento opressor, por acreditarem que toda mulher é dona de seu próprio corpo e tem o direito de se vestir como quiser sem estar sujeita a situações de assédio moral, sexual e/ou estupro. Esse movimento se espalhou por todo o mundo, chegando ao Brasil com o nome de “Marcha das vadias”.
No Brasil, os termos “vagabunda” ou “vadia” receberam uma conotação pejorativa, pois são utilizados como uma crítica à liberdade sexual das mulheres. No entanto, é uma crítica que ganhou maiores proporções: toda mulher que se impõe e faz o que quer é tachada de “vagabunda” ou “vadia”.Quantas vezes nós mulheres, namoradas, cidadãs, trabalhadoras, mães, estudantes fomos chamadas de “vagabundas”, seja por desconhecidos, patrões, namorados/maridos, policiais e até mesmo por outras companheiras que reproduzem esse discurso machista? São palavras que marcam a nossa história. Por que a mulher que se veste diferente do padrão instituído pela sociedade é chamada de “vagabunda” e “vagabundo” é o homem que não trabalha? Baseado em que valores esse significado foi aceito pela sociedade e quem os criou?
A questão é como ressignificar esses termos. Há quem diga que isso não é possível pela carga pejorativa que possuem. Porém, acreditamos que a luta cotidiana contra esse tipo de opressão pode, mesmo que a longo prazo, conscientizar a sociedade e ressignificar os termos de modo que estes tenham o mesmo significado, independentemente do gênero.
Não é uma roupa que nos deixa mais ou menos vulneráveis. Outro dia, um humorista famoso publicou algo do tipo que “mulher feia” deveria agradecer por ser estuprada e muitas pessoas acharam isso engraçado e concordaram com essa afirmação. NADA justifica um assédio sexual. Nenhuma mulher é estuprável. É contra isso que devemos lutar! A “Marcha das vadias” foi uma das representações dessa luta cotidiana, com o objetivo de questionar o controle que existe sobre o corpo e a sexualidade da mulher e o fato de que as mulheres são culpadas por serem estupradas. A nossa sociedade tem ensinado “como não ser estuprada”, quando deveria ensinar “não estupre”. O machismo é tão evidente que não se critica um homem por andar sem camisa no meio da rua... eles podem fazer isso sem serem assediados ou tachados de “vagabundos”. Não podemos nos limitar e limitar as nossas mulheres a esses estereótipos. Não podemos aceitar essa opressão sem nos manifestar!
Outra evidência do machismo hoje é que manifestações como essas não são vistas como forma de protesto a esse posicionamento opressor e são duramente criticadas.
E fazemos nossas as palavras das companheiras que marcharam em Brasília:

“No Brasil, marchamos porque cerca de 15 mil mulheres são estupradas por ano, e, mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro. Marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja como se fossemos o próprio objeto de consumo; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo e nos rotulando em “santas” ou “putas”; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas e estupradas pelos senhores são hoje empregadas domésticas e continuam sendo estupradas pelos patrões.

Marchamos porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pelo estupro, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens sem seu consentimento, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente.

Mas podemos.
Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque
transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias diariamente apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir. Se, nanossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somostodas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos.

Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias...TODAS MERECEMOS RESPEITO!”

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